Programas

Projeto Entre Nós

Realização: OÁ Galeria

Ano

2019

Período

12.08 a 18.02.2020

Residentes

Alexandre Sequeira (PA)
Regina Chulam (ES)
André Arçari (ES) E Mônica Leão (ES)
Lucrécia Urbano (ARGENTINA)
Residência Coletiva com os artistas Bárbara Carnielli
Esther az
Lorena Pazzanese
Luana Vitra
Max Willà Morais
Marcelo Venzon

Curadoria

Ernesto Bonato
Clara Sampaio
Juliana Gontijo

“As residências realizadas partiram da vontade de (re)aprender a se conectar com o presente e com o corpo, valorizando a partilha de vivências pessoais e outras possibilidades de criação. Apostando na condução de cada uma das pessoas envolvidas nesse processo, desenhamos em conjunto quatro residências, entre os meses de junho a outubro de 2019. As artistas Juliana Pessoa e Liliana Sanches ocuparam, cada uma em seu tempo, o espaço de uma galeria de arte que é também uma casa, movendo-se de seus ateliês cotidianos a esse novo espaço, que apesar da escala do doméstico, desafia por sua outra rotina, códigos e habitantes. Já no Mosteiro, Alexandre Sequeira vai em busca do que tem sido o grande mote de sua prática artística, a experiência (do) comum, e encontra, na solidão da casa de vidro da Estação Cultural, uma nova possibilidade de conviver com o outro. Com a residência coletiva, junto à Mata Atlântica e ao universo particular do Zen Budismo, nos lançamos ao desafio de criar um espaço de convivência temporário, lugar em que dividimos nossas inquietações, processos criativos e tarefas do dia-a-dia.” Clara Sampaio

Veja a seguir o relato de alguns artistas residentes.

Foto por Regina Chulam

Regina Chulam – A montanha da alma Gao Xingjian

20 a 31 de Julho de 2019

“(…). Não sei se já reflectiste nessa coisa estranha que é o eu. Muda à medida que é observado, como quando fixas o teu olhar nas nuvens do céu, deitado na erva. (…)”

“(…). Se concentras a tua atenção no teu eu, apercebes-te que ele se afasta pouco a pouco da imagem que te é familiar, que se desmultiplica e assume facetas que te surpreendem.  É por isso que, se tivesse de exprimir a natureza essencial do meu eu, seria invadido por um terror incoercível.  Não sei qual dos múltiplos rostos me representa da melhor maneira e, quanto mais os observo, mais as transformações me parecem manifestas.  Afinal, só fica a surpresa. “

(…)

“(…). É por isso que Buda ensinou a vigilância: todas as imagens são mentiras, a ausência de imagens é também mentira. (…)”

(GAO XINGJIAN; A Montanha da Alma; cap. 26, pág. 175; Publicações Dom Quixote, 2001; Portugal)

“A residência correu tranquila embora o tempo não colaborasse, o que me impediu de passear.  A paisagem ficou ‘toldada’ pela neblina quase que constante.  Isto fez com que eu me virasse para dentro.

Com exceção dos dois primeiros dias após sesshin, estive direto na residência.  Dormi e fiz as refeições lá, só descendo ao mosteiro para almoçar um dia com o Daiju, e lanchar no dia do meu aniversário.  Um mergulho; imersão completa.  

Durante os sesshin fiz uma palestra para os participantes.  O retorno foi interessante e, me parece, todos gostaram bastante.  A palestra constou de uma viagem pelo meu trabalho.  Falei do dia a dia do artista no ateliê, da nossa vivência enquanto pessoas do fazer.  Fugi às referências chamadas intelectuais do nosso processo. Deu resultado.  Foi bastante informal o que aproximou os participantes.  O tempo, sempre curto, não proporcionou grandes diálogos. Nos dias seguintes muitos participantes vieram conversar sobre a palestra. […] 

Os retiros que tenho feito ocasionaram grandes mudanças, mesmo impactantes no meu ser.  Com certeza que refletem no trabalho.  Encontrar o ‘hara’, entender e sentir a palma na palma do gashô foi um espanto.  Sair da parede (a convite do Daiju fiz ZAZEN dentro, com os monges, devido ao meu problema de audição e, lá, faz-se zazen distante da parede), foi um mergulho num abismo impressionante visto que ela deixou de existir em termos reais.  A diferença é abissal. Houve uma espécie de desorientação; me perdi sem a parede. 

Os dias na residência foram de trabalho.  O que fiz lá foi completamente destruído quando cheguei.  A ‘desorientação’ me induziu ao que eu chamaria de um confronto com o ‘eu’.  

O que daí resultou: 

Urgia que eu me (re) visitasse, me olhasse no espelho.  Esse eterno ‘reflexo’ do que pensamos que somos…

Há tempos fiz três exposições com autorretratos.  A primeira foi na Casa Fernando Pessoa e chamava-se “IMPERMANÊNCIA – UM CAMINHO PARA O AUTOCONHECIMENTO”.  As outras duas foram “PROCURA-SE I” e “PROCURA-SE II”.

Retomei os autorretratos (pintura). 

Este está sendo o resultado da residência.”

Regina Chulam

Foto por Alexandre Sequeira

Alexandre Sequeira – Sobre o tempo para se falar com as coisas do mundo

12 a 22 de Agosto de 2019

“Minha chegada na Estação Cultural do Mosteiro Zen Morro da Vargem aconteceu no dia 12 de agosto de 2019. Passado o momento inicial de fascínio pela geografia local e pela atmosfera do lugar, pude experimentar uma sensação que, lentamente me deslocaria para o centro das questões que norteariam minha atividade na residência artística: certa dimensão temporal que rege os acontecimentos do lugar. Refiro-me a certa distensão nas relações que eu passava, a partir de então, a estabelecer com o espaço, os sons, a luminosidade local. Algo que relativiza as referências temporais que costumam nortear nossa vida citadina. Meus olhos atentavam agora para a mudança de luz no interior da caixa de vidro que é a Estação Cultural, considerando a lenta movimentação das sombras pelo interior do prédio como referência de passagem do tempo. Do mesmo modo, meus ouvidos se adequavam ao som do farfalhar das folhas ao vento; aos pássaros que cantavam, uns no amanhecer, outros no entardecer, ou no delicado estalar da queda das sementes de seringa no calçamento da via de acesso à Estação. Meu corpo passava, lentamente, a incorporar uma série de sinais que, reunidos, constituiriam uma nova sintaxe comunicacional entre mim, o tempo e o lugar. A sensação inicial de isolamento foi dando lugar a um entendimento de pertencimento e sociabilidade com tudo a minha volta, o que se confirmou em uma preleção do Mestre Daiju na sede do Mosteiro. Disse ele: nossa atenção com o outro é, em verdade, nossa atenção com tudo a nossa volta: as pedras, as plantas, o ar. Dei-me conta, então, que o trabalho que há cerca de duas décadas venho desenvolvendo a partir de relações de encontro e trocas simbólicas com outros, poderia sim se estabelecer ali, já que, a despeito de minhas primeiras impressões, não estava só. Ao longo dos onze dias de permanência na residência, me entreguei a um ritmo próprio fazendo com que cada pequeno detalhe fosse merecedor de todo o tempo do mundo. Passei a coletar as folhas e sementes que caiam das árvores e, com elas, busquei estabelecer um diálogo que tratava do tempo de nosso convívio. Um tempo que se esgarçava preguiçoso fazendo com que os dias e os sinais de seu passar se convertesse, em verdade, na melhor forma de lidar com a vida no lugar. “Sobre o tempo para se falar com as coisas do mundo” é, acima de tudo, um documento desse prazeroso convívio.

Sobre a socialização da experiência poética

Gostaria de partir de uma questão que, em sua natureza, é metafísica: o que é Arte? Ou ainda, onde esta questão coincide com outra questão de natureza existencial: qual o sentido da vida? Viver, segundo Friedrich Nietzsche, não é apenas adaptar-se às circunstâncias externas. A vida é antes de tudo, atividade criadora; atividade formadora. O conceito de Doutrina da Vontade Criadora, por ele apresentada, é definida como a vontade de interpretar o mundo – vontade essa que estabelece uma intrínseca relação entre arte, vida e pensamento. A vida como vontade de potência, como eterno superar-se; é, antes de tudo, atividade criadora e como tal é alguma coisa que quer expandir sua força, crescer, gerar mais vida. 

Os mecanismos que operam nesse esgarçamento dos limites que separam o “sujeito empírico” do “sujeito artista” (onde ocorrem os deslocamentos Arte/Vida), sinalizam para a compreensão do corpo como um meio pelo qual esse sujeito processa o ato criativo, assim como a produção do que se entende por obra como elemento intercessor junto a um sistema de mediação ou circuito. Nesse sentido, os enunciados artísticos se fazem numa linha fronteiriça entre o indivíduo e o mundo. Um limite permeável, tátil, poético – menos fronteiriço e mais uma zona quente e porosa, onde forças livres e disponíveis podem tanto carregar de energia quanto dissolver planos pré-estabelecidos. Um território onde as coisas se movem num fluxo que pressupõe aproximações e/ou afastamentos, tangências, atritos e contaminações. 

Penso na possibilidade de, juntos, analisarmos os enunciados poéticos enquanto uma cartografia emocional de uma sociedade, já que a elaboração de formas se constitui num aspecto essencial da condição humana. Nesse sentido, o artista é compreendido enquanto um ser que tem como projeto criar formas renovadas da existência coletiva e carrega consigo um tipo de pensamento que obedece à lógica da emoção e da sensibilidade. Tal lógica nos faz reconhecer que todo o enunciado poético pressupõe, essencialmente, entender a vida que o anima.

Para tanto, sugiro além de leituras e discussões sobre o tema, o desenvolvimento de proposições de natureza artística (individuais e/ou coletivas) que lancem mão de uma poética da delicadeza. Isso envolve um entendimento da potência de obras que, tanto do ponto de vista de sua escala quanto de sua materialidade contribuam para uma relativização dos possíveis limites entre o território “dito” cotidiano e o território “dito” da Arte.”

– Alexandre Sequeira

Foto por Bruno Zorzal

André Arçari e Mônica Leão  – Ainda em busca de um nome

11 a 22 de dezembro de 2019

Situação I

“Se você está engajado em uma viagem, você chegará.”

Ibn Arabi (1165-1240)

Situação II

 “Não há solução porque não há problema.”

Marcel Duchamp (1887-1968)

Ainda em busca de um nome trata-se do nome do projeto proposto pelos artistas André Arçari e Monica Leão, realizado na residência artística do Mosteiro Zen Morro da Vargem Zenkoji – Ibiraçu ES.

A pesquisa propôs uma relação mais aberta do que fechada, e – baseado tanto na noção de incerteza quanto no corpo de obras que André Arçari chamou de trabalhos de terra –,  somadas as experiências de desmaterialização  da obra de arte imbuída no pensamento de Monica Leão, além das noções de vazio, o atravessamento pela cultura oriental e as afinidades afetivas com o zen budismo, os artistas propuseram se valer das características espaciais, arquitetônicas, históricas e culturais daquele próprio lugar para sua constituição de trabalhos site-specific voltados para uma noção processual.

Grosso modo, o mote da proposta era tomar proveito da espiritualidade zen budista, da própria noção de presença, wu wei (não-ação), zazen (apenas sentar) e da estética wabi-sabi, não para construir obras sólidas que se concentrassem em uma condição material senão no desenvolvimento e busca de algo que se fizesse física e espiritualmente naquele tempo e naquele espaço, na medida em que esse mesmo tempo e esse mesmo espaço, a priori incertos, moldassem as formas e os gestos insurgentes.

Depoimento dos Artistas

“Acreditei ser importante carregar comigo para o mosteiro os aprox.. 5kgs café utilizado em minha escultura A Luta Soterrada, 2019, apresentada por ocasião da minha exposição individual Trabalhar Cansa, 2019 (Galeria Espaço Universitário – UFES) para somar essa borra de café que era resultado de um consumo pessoal de 1 ano de café, ao pó que iríamos consumir durante a residência. Também levei materiais com os quais já trabalhava há anos, itens pessoais como uma tigela tibetana, uma roda de oração budista, pedras para reestruturação energética, uma câmera com tripé para realizar fotografias e filmagens, alguns lápis e um bloco de papel layout que costumo usar para trazer ideias a superfície. Somei meu material ao de Monica, em especial seu rolo de papel japonês kozo e o grande recipiente de tinta da china. Era importante ir com o mínimo pois o que nos importava na residência era a experiência direta com o espaço, das horas passadas à escuta sensível do morro da vargem.

Assim, o trabalho que realizei concentrou-se num conjunto de meditações diárias, que abria uma porta para a interioridade, por onde guiei o processo. Retirei tensões acumuladas em partes do corpo numa série que chamei “Trabalhos Estressados”, explorei a materialidade do café em diálogo com lichias que recebemos cordialmente do Mestre Daiju em nossa estada, bem como nos utilitários de cerâmica realizados por Kimi Nii para o espaço. A partir disto dei seguimento a minha obsessão infinita pela forma circular ao realizar este gesto no espaço, inicialmente com meu corpo, posteriormente peneirando o café no chão da estação cultural. Esse material era posteriormente trabalhado, fotografado e filmado, e ao final da residência foi colocado nos pés das árvores localizadas na parte de trás da casa, cumprindo seu ciclo como adubo natural. Por fim, decidi que também era válido transfigurar esse eterno retorno energético em alguns desenhos; assim surgiram os ensõs diários de nankin.”

– André Arçari

“Diz-se que o conceito de onkochishin permeia o pensamento de algumas sociedades orientais. Em tradução livre, a expressão pode significar perguntar velhas coisas para saber outras novas; visitar o passado para produzir conhecimento; ter novas ideias revisitando aquelas antigas. Durante o período da residência me propus partir deste conceito para testar aproximações com a produção das artistas referenciais japonesas Mieko Shiomi, Shigeko Kubota, Takako Saito e Yoko Ono. Os exercícios e resultados desta experiência foram desde trabalhos de escrita (revisionismos ideogramáticos e name cards) ao recolhimento diário de peças de silêncio no deck, passando pela execução de objetos e vídeos e a repetição-acumulação de ensōs e projetos de obras para futura ativação em espaço expositivo.

Para fora dos limites do que me propus executar, havia uma premissa interna de que as atividades se desenvolvessem mesmo em torno do ensō, não apenas como imagem/símbolo mas também espacial, temporal e tematicamente; assim, algumas ações dentro desta concepção mais aberta foram motivadas por elementos do local e pelo compartilhamento do espaço de produção, esboçando coreografias circulares em torno dos Trabalhos Estressados do André, recolhendo amostras de terra e flores para confecção de tintas e observação dos ciclos de vida dos pigmentos, desenhando esboços da paisagem em papel de fibra de kozo aplicado sobre os vidros em toda a volta da construção, e fazendo experiências de contato entre a tensão do corpo e a tensão superficial da água inseridas na paisagem panorâmica.”

– Mônica Leão

Foto por Christina Bastos

Lucrécia Urbano

20 a 29 de Agosto de 2019

“Em 2008 comecei a Zona Imaginaria, ZI – workshop + residência em San Fernando, um bairro da periferia de Buenos Aires. Na ZI sempre circula muita gente, desde oficinas para os meninos do bairro, oficinas de gravura e a casa da residência sempre habitada. As residências artísticas têm como objetivo deslocar o olhar do artista e conectar diferentes cenários e trabalhar com outros. Mas eu precisava do oposto.

O convite de Ernesto Bonato para esta residência veio em um momento crucial da minha vida, eu precisava de um momento de retiro. Cheguei em agosto e fiquei dias sozinha na imensidão da paisagem, a princípio pode ser paralisante, mas aos poucos vai-se percebendo cada vez mais detalhes. Você vai do macro para o micro o tempo todo, observa e ouve e essas mudanças se refletem em seu corpo e nada disso pode ser traduzido em palavras. Tudo está sentindo, derretendo e espelhando. Alguns dias fica mais pesado, mas sempre vem uma brisa, trazendo água todas as tardes e você pode voar.

Eu precisava desse ‘Não tempo’ para sentir o que está por vir, um auto-parêntese, imersa na mãe natureza, nessa roda de mudanças sem parar.

Trouxe materiais simples, uns papeis finíssimos de fibras naturais que fiz anos atrás com fórmio, planta que cresce no Rio de la Plata, algumas aquarelas e acrescentei sementes que encontrei nas minhas caminhadas diárias. Minhas preferidas eram umas bolinhas carmesins. Eles me disseram que são chamados de Olhos de pavão real ou falso Pau Brasil.

O prédio da residência, com suas paredes de vidro, era um grande anfiteatro que me permitia brincar e fazer umas instalações de pequenos ensaios para os pássaros ou iguanas que me visitam diariamente e trocá-las todos os dias.

No final da minha residência, um grupo de mulheres da comunidade veio me visitar. Naquela época, veio a notícia de que começaram os incêndios na floresta amazônica, então tive a ideia de trabalhar com árvores em ZI. O slogan era simples, pergunte se eles se lembraram de uma árvore na calçada e faça um mini Bio para ela: Como se chama? Quem o plantou? Quem cuida dele? Tem flor, fruta? Você tem coragem de desenhá-lo? E dessa forma poder mapear as árvores da sua vizinhança. Passamos uma bela tarde conversando e compartilhando.

Também tive a oportunidade de apresentar o projeto da Zona Imaginaria e meu trabalho na OÁ Galeria, de Thais Hilal, em Vitória, trocar a experiência da residência e como o mundo é um ovo, descobri que alguns dos residentes da Zona Imaginaria faziam parte desta galeria.

Visitei também a escola de cerâmica, uma grande oficina de produção para a comunidade. E para coroar a experiência neste mesmo ano, vieram visitar a Zona Imaginaria os monjes Daiju e Kendo para continuar pensando em intercâmbios de projetos.”

Lucrécia Urbano

Foto por Ernesto Bonato

ENTRE NÓS 2019 –  Residência Coletiva com os artistas Bárbara Carnielli, Esther az, Lorena Pazzanese, Luana Vitra, Max Willà Morais, Marcelo Venzon e as curadoras Clara Sampaio e Juliana Gontijo

19 a 29 de Setembro de 2019

“Escolho começar afirmando que o mais significativo, aqui, é a passagem, o deslocamento da consciência, a atenção ao momento. Por que não ver a consciência como a capacidade de orientar a atenção? O que segue são notas, expressões da minha atenção durante os dez dias de residência. São fragmentos de momentos vivenciados que fazem eco com as pedras soltas e os imensos abismos da paisagem do Mosteiro Zen Morro da Vargem.

19092019 >> Princípio primeiro: a residência será vivenciada a partir do conceito de corresponsabilidade. Três dimensões sobrepostas: o individual, o coletivo, o comum. Queremos expandir os encontros mediados pela comida. Preparo coletivo, autogestão. Horizontalidade. Propomos decidir diariamente no coletivo a dinâmica do dia seguinte. Inspiro (“Experimentar o experimental”, de Hélio Oiticica).

“Os nomes de minerais e os próprios minerais não se diferem, porque no fundo tanto do material quanto do sinal impresso está o começo de um número abissal de fissuras. Palavras e rochas contêm uma linguagem que segue a sintaxe de fendas e rupturas. Olhe para qualquer palavra por bastante tempo e você vai vê-la se abrir em uma série de falhas, em um terreno de partículas, cada uma contendo seu próprio vazio. Essa linguagem desconfortável da fragmentação não oferece nenhuma solução gestalt fácil; as certezas do discurso didático são arrastadas na erosão do princípio poético. Perdida para sempre, a poesia precisa se submeter à sua própria vacuidade; é de algum modo um produto da exaustão, mais do que da criação. A poesia é sempre uma linguagem agonizante, mas nunca uma linguagem morta.”

Robert Smithson em “Uma sedimentação da mente: projetos de terra”.

Juliana Gontijo

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