Programa 2017
2017
03.05 a 17.12.2017
Cláudia França
Marcelo Silveira
Ernesto Bonato
Marina Faria
Fernando Augusto
Dulce Osinski
Ernesto Bonato
Ao longo de 2017, sob a orientação curatorial de Fernando Augusto dos Santos, um grupo de seis artistas apresentou ao público, na Estação Cultural, um conjunto de resultados oriundos, direta ou indiretamente, de residências artísticas realizadas ali. Mais do que apenas retomar as ideias em sua originalidade, a intenção era ampará-las em pressupostos educativos capazes de ressignificá-las; para isso, contamos com a contribuição da professora Adriana Magro, responsável pelas ações educativas do projeto.
Esta publicação registra não somente os esforços desprendidos e os êxitos obtidos neste processo, como sinaliza, por meio da objetividade e da dedicação de todos os envolvidos, o compromisso original assumido pelo Mosteiro, superando com alegria antigos obstáculos que, de toda forma, não foram menos encorajadores que seus resultados.

CLÁUDIA FRANÇA – horizontes
3 de junho a 8 de julho de 2017
“Horizontes nasceu de uma breve vivência de três horas, em solidão, no interior da sede da Estação Cultural. Era um dia ensolarado. Voltada para a parte frontal da casa, eu contemplava a paisagem, considerada o cartão postal da Estação: o encadeamento de montanhas, uma pequena cidade, vestígios de uma estrada, a predominância de verdes e azuis. Se a panorâmica é considerada, inconteste, o fenômeno visual do lugar, havia outro, tão cotidiano e belo quanto ela: a luz solar que invade o salão da casa. Todos os dias, o Sol desenha no chão da sala linhas diagonais, perspectivadas, com gradientes tonais e de espessuras diversas. Linhas de sombra em lento movimento, desenhos pulsantes, conformes aos movimentos das nuvens. No entanto, o desenho solar só se dava graças a outro desenho silencioso – o jogo simétrico e ortogonal das esquadrias de madeira –, desenho sempre indiferente ao olhar que se dirige à imponente paisagem montanhosa. Ficar ali, sentada no salão vazio, fez-me perceber esses desenhos, para além do que era distante. Queria uma forma que aproximasse o plano longínquo deste jogo de acontecimentos gráficos. Desse modo, a solução para uma proposta de intervenção artística resolveu-se na simplicidade de desejar erigir o desenho solar ofertado pelo tempo e pela luz. Construindo em madeira aquelas diagonais de sombra, talvez conseguisse aproximar realidades distintas: o desenho ortodoxo da grade das esquadrias, o desenho movente do chão e as diagonais naturais das montanhas longínquas.
Horizontes, um desenho tridimensional, é constituído pela trama de três conjuntos de ripas articuladas de madeira reaproveitada – paraju, angelim e peroba rosa. As ripas têm perfil quadrado, de dois ou três centímetros de lado, em diversas extensões. Suas extremidades recebem chanfros e furos; por meio de parafusos e porcas, compõem-se grandes linhas dobráveis. Os conjuntos estendem-se pelo vão do salão, de mais de seis metros; afixados nas paredes laterais com sapatas de madeira, ainda têm o chão como apoio em alguns pontos. A distância entre os conjuntos permite o uso de algumas travessas transversais às linhas, que dão mais leveza ao todo, em contraponto à agressividade da angulação dos filetes. O uso das direções verticais, horizontais e transversais gerou, em alguns momentos, formas poliédricas, que nomeei “poliedros sem peles”; por serem transparentes, eles permitiam que, ao se deslocar, o espectador percebesse outras nuances do desenho tridimensionalizado.
A partir de Horizontes, a grade de madeira perde sua passividade visual e se reativa, em um diálogo que se estende à trama tríplice das ripas articuladas. Como as esquadrias, Horizontes tornou-se também um anteparo para os desenhos do Sol. No entanto, em função da complexidade da trama construída, os desenhos de chão pareciam “enlouquecidos”: agora, faziam seu caminho diário e inexorável pelo chão e pelas paredes acima carregando linhas novas, para além das sombras das esquadrias. Enlouquecidos por aquela desmaterialidade gráfica; enlouquecidos porque pulsavam em função da intensidade de luz; enlouquecidos porque desapareciam nos dias de chuva. O entardecer também contribuía: ia revelando o desaparecimento do desenho, que ressurgia no dia seguinte não se sabe como, se intenso ou suave. Chegaria o dia em que Horizontes desabitaria a Estação Cultural do Mosteiro. Poderão as linhas de sombra, em sua futura solidão, evocar aquele encontro?”

Marcelo Silveira – COM VERSO
3 de julho a 28 de agosto de 2017
“O desenho da casa
O mirante, uma casa de madeira e vidro, transparente na maioria de suas paredes. A surpresa de estar dentro e fora ao mesmo tempo.
Dentro, com as luzes apagadas, estava protegido. Fora, integrado à paisagem, via estrelas, ouvia os sons dos caules das árvores ao se tocarem e o chocalhar das folhas. O vento contribuía para o espetáculo.
A mesma luz que me protegia deixava-me vulnerável.
Vi nascer o Sol todos os dias. Na ausência da luz natural, as sombras feitas pela iluminação das lâmpadas, num primeiro momento, assustavam-me.
Para facilitar o deslocamento, cordões, uma bengala, estruturas de um antigo armário e poucas roupas compunham minha bagagem de chegada. Fui recebido por uma mesa-árvore, duas camas-tatame, várias almofadas cansadas pelo uso das cores e um banco voador. Aos poucos, os elementos familiares trazidos encontrariam o desconhecido e estabeleceriam uma conversa.
Quem habitou esta casa? Como vou habitar esta casa? Como será o desenho da casa?
Toda casa precisa de um pré-desenho e de muitos outros pós-desenhos.
Como seria o desenho da minha casa? A casa seria um C com asa?
Ao lado da casa transparente existiam outras. Chamou-me atenção a do tatu e a das formigas.
Fiquei na expectativa de presenciar a saída do tatu, mas ele não desejava conhecer o vizinho.
Das formigas, usei parte do material, sem prévia autorização, para intervir no espaço interno da casa de vidro.
Dormia quando dava sono. Comia quando dava fome. Assim eram o dia e a noite na residência.
Próximo à vidraça estendia meu colchão, para sentir a movimentação das estrelas…
Internamente, a conversa resultou em um alinhamento dos objetos. Externamente, os fragmentos das árvores foram amarrados com cordões, de forma que a continuidade dessa linha estabelecia uma ligação entre um espelho d’água, na parte posterior e inferior do jardim, uma árvore, que ficava na lateral da casa de vidro, e a primeira construção do Mosteiro.
Por favor, ‘O desenho da casa!’”

Ernesto Bonato – Zazen
Marina Faria – Diário do Morro da Nuvem Branca
5 de setembro a 2 de novembro de 2017
“Estes escritos, entre tantos tecidos por mãos entrelaçadas, talvez comuniquem o sabor (não o fato) de algo que foi vivido ali e não só ali.
1.
Frágeis e loucos, flutuam sem resistência, mas não se iludem. Sem posses, não podem ser roubados; sem objetivo, já chegaram antes mesmo de partir; não sabendo, compartilham dos mistérios. Errando sempre, são abençoados.
Sua bênção não vem do que sabem, mas do que sentem, e do que sentem nascem todas as suas ações.
Vagabundos, não buscam respeito ou consideração. Como crianças, desfrutam o momento. No sol da tarde, aquecem suas peles de pergaminho.
Sobre eles, o Sol escreve histórias de séculos atrás e dos segundos atuais.
Palimpsestos maltrapilhos, carregam a história do mundo inteiro, mas comportam-se como bobos. Seu falar é obscuro.
Em seus mistérios, não há nada para ser descoberto. Apenas ornamentos não lineares.
São vistos sempre de longe, a certa distância. Toda a sua beleza reside nisso.
2.
No ar quente em que circulam as folhas, o cheiro macio de chá liquefaz ventos e concreto.
O cheiro branco do jasmim, o aroma verde da camélia, misturam-se nas narinas, enquanto os lábios sorvem a bebida ainda quente.
A boca engole para fora todos os perfumes. Num instante o calor escorre até o pé.
Sentado, no centro do jardim, acende um foguinho acolhedor ao lado de uma fonte de água pura, feita de um mármore mais branco e delicado que a plumagem de uma coruja polar.
A noite vem com um vento que é ar outra vez e carrega tudo. Resta uma xícara branca sobre o chão de pedra.
No azul noturno, lobos cinzentos enfeitiçados habitam o local. Buscam os homens que já foram. Não é dessa vez que irão encontrar.
Nem da próxima. Sob a xícara, um bilhete de despedida.

Fernando Augusto e Dulce Osinski – Paisagem Atlântica
2 a 17 de dezembro de 2017
“Ver a paisagem. Este foi primeiro passo. Antes mesmo de nos encontrarmos na Estação Cultural, buscamos conhecer as paisagens do mosteiro por meio de registros fotográficos e descrições verbais e escritas. Assim, a floresta se impôs como imagem a ser trabalhada na residência. A partir daí, construímos um pensamento de desenho e paisagem. Criou-se então, entre Vitória e Curitiba, uma linha de comunicação permanente para troca de ideias e impressões e tomadas de decisão.
O entorno. A Mata Atlântica que se dá à vista no Mosteiro é exuberante. Um simples passeio por suas trilhas nos mostra isso. Ao chegar à Estação, o que se vê, inicialmente, à distância, é um panorama de vales e montanhas admirável. No entanto, abrimos mão da vista frontal do mirante, ponto mais visitado e fotografado da Estação, para focar a paisagem às costas do observador que passa distraidamente. A paisagem de perto dali, e não a de longe, é que seria desenhada. O conceito foi construído a partir de alguns pressupostos. Primeiro, o ponto de vista aparentemente desinteressante, aquele que fica às costas do mirante, colocava o desenho como elemento definidor do que seria de interesse, desviando o olhar do espectador do mirante para as árvores de trás, e enviando-o de volta, assim, numa tarefa reflexiva sobre o caminho percorrido. Segundo porque, estando o desenho exposto perto do lugar retratado, este poderia ser visto, visitado, experienciado. Terceiro, a escala: o desenho seria um detalhe em escala real da paisagem, e poderia ser visto e comparado à escala verdadeira.
A escala. Desenhar uma paisagem em escala real – neste caso, um detalhe da Mata Atlântica em suas verdadeiras dimensões. Como a parede central da Estação tem um pé-direito de 4,30 metros e 0,70 metro de largura, a paisagem “transportada” para sua superfície teria, também, essa medida. Estamos acostumados a ver paisagens em escala reduzida, representações pictóricas, gráficas ou fotográficas; mas uma árvore, por exemplo, mede facilmente cinco, dez, quinze metros ou mais. Como representar essas dimensões reais em pintura ou desenho? O que essa escala pode nos dizer? Difícil chegar a uma conclusão; mas, assumindo estas dimensões, pensamos poder dizer algo da grandeza do mundo, do nosso olhar, e também do nosso corpo. A beleza é que, ao deixar de criar paisagens pequenas, descobrimos que mesmo em grandes dimensões não damos conta delas; assim, ao nos deparar com um desenho de paisagem de 24 metros quadrados, é como se imergíssemos na natureza.
O material. Após decidir o que seria feito e em qual linguagem – o desenho –, refletimos sobre o material. O preto e branco nos pareceu mais adequado para falar da diferença e da semelhança entre desenho e objeto, e por possibilitar maior contraste entre os múltiplos tons verdes e azuis da paisagem. Assim, materiais como carvão e pastel seco em tons de cinza se impuseram em nossas escolhas, pela fluidez na construção da linha e pelas múltiplas nuances que oferecem – ora aveludada e difusa, ora fina e precisa. Utilizado desde tempos imemoriais, o carvão esteve sempre ligado ao ofício do artista, frequentemente auxiliando-o em etapas preparatórias ou estudos. Aqui, assumiu o papel de protagonista.
Trabalhar juntos. Contrariando a ênfase individual, muito presente na arte contemporânea, sobretudo no desenho, escolhemos trabalhar uma modalidade pouco experimentada: a quatro mãos. A proposta de um trabalho colaborativo e a ideia de imersão para sua produção estavam implícitas no projeto. Assim, durante dez dias, habitamos o mesmo espaço, onde trabalho e convivência pessoal andaram juntos. Compartilhamos atividades rotineiras – refeições, caminhadas, silêncios. Conversamos sobre arte e sobre a vida, e reforçamos nossos laços de amizade. No ato de desenhar juntos, fizemos com que nossos traços se confundissem, num diálogo que exigiu negociações e, por vezes, renúncias. A divisão do grande painel em 24 módulos de um por um metro cada impôs um ritmo de trabalho em que dois desenhos eram sempre desenvolvidos simultaneamente. Trabalhamos lado a lado e também, frequentemente, trocando de lado, para que cada fragmento tivesse a presença dos dois. Nos intervalos, tecíamos reflexões e nos exercitávamos em trabalhos menores, desenhos e aquarelas que surgiam – motivados, da mesma forma, pela paisagem circundante. Aos poucos, o trabalho tomou corpo. A montagem foi feita no chão, o que nos encantou e nos revelou, inicialmente, uma nova possibilidade de expor. Neste ponto, entretanto, acabamos optando pela verticalidade do projeto original. A cada módulo instalado e ajustes feitos, o espanto e a emoção com o resultado alcançado. Onde estava cada um de nós? O que era um e o que era o outro? Com o trabalho concluído, já não era mais possível distinguir quaisquer diferenças. O desenho era um sinal de que, de certa forma, tínhamos alcançado nossos objetivos.”
– Fernando Augusto e Dulce Osinski
Links
https://issuu.com/oagaleria/docs/catalogo_zen_issuu_8d01009f8d7ecd
https://esbrasil.com.br/nova-exposicao-em-ibiracu/
https://www.folhavitoria.com.br/geral/noticia/06/2017/mosteiro-zen-de-ibiracu-recebe-exposicoes-de-arte-ate-o-final-do-ano-na-estacao-cultural
https://g1.globo.com/espirito-santo/noticia/mosteiro-zen-de-ibiracu-recebe-quatro-exposicoes-ate-o-final-do-ano.ghtml