Programas

Programa 2018

Ano

2018

Período

05 a 11.2018

Residentes

Marcelo Zocchio (SP)
Maurício Parra (SP)
Danielle Noronha (SP)
Bruno Zorzal (ES)
Clara Pignaton (ES)
Christina Bastos (ES)
Kyria Oliveira (ES)

Curadoria

Fernando Augusto
Clara Sampaio
Ernesto Bonato

Em 2018, a Estação Cultural recebeu artistas capixabas e paulistas em seu Programa de Residências Artísticas, tais como Marcelo Zocchio, Maurício Parra, Danielle Noronha, Bruno Zorzal, Clara Pignaton, Christina Bastos e Kyria Oliveira. Sob a Curadoria de Fernando Augusto e Ernesto Bonato, com participação de Clara Sampaio para o Projeto Cá Entre Nós, os artistas vivenciaram a rotina da Estação e expuseram seus trabalhos aos visitantes.

Veja a seguir o relato dos artistas residentes sobre suas experiências.

Marcelo Zocchio – Geração Espontânea

Maio de 2018

“Minha experiência na residência no Mosteiro Zen Morro da Vargem durante 10 dias em maio de 2018 foi muito rica pois realizei um trabalho, intitulado Geração espontânea, através de um processo criativo incomum para mim.

Fui para a residência sem nenhum material ou ideia pré-concebida, determinado a criar alguma coisa com material encontrado na natureza, ao redor do ateliê que seria disponibilizado para mim e com ferramentas simples que o mosteiro poderia me emprestar.

Como é frequente no meu trabalho, fui seduzido pela maneira como o homem se utiliza da natureza, da madeira no caso, alterando suas formas, para adaptá-las para o uso na construção ou movelaria. Assim, dentro do generoso espaço do ateliê que foi disponibilizado para mim, surgiu a ideia de fazer uma escultura a partir do rebatimento das linhas do madeiramento do telhado no piso. 

O processo de criação da escultura porém, se revelou diferente daquele que sempre estive acostumado, onde uma ideia é preconcebida, um projeto é feito e executado quase sempre sem grandes mudanças até o final. Nesse caso o projeto começou a ser executado, mas o trabalho tomou um rumo independente e de alguma forma compartilhou comigo sua conclusão. Esse processo me surpreendeu e sinto que me fortaleceu como artista.

Ao final da residência o trabalho foi transferido para o exterior onde permanece até hoje sendo consumido pelo tempo.”

Marcelo Zocchio 

Foto por Marcelo Zocchio

Maurício Parra e Danielle Noronha

17 a 30 de Julho de 2018

“Esta foi a primeira experiência de parceria entre o Programa de Residência da Estação Cultural do Mosteiro Zen Morro da Vargem e a OÁ Galeria, de Vitória, ao acolher proposta de curadoria de Thais Hilal para a realização da residência dos artistas Maurício Parra e Danielle no Mosteiro. 

O silêncio e a paisagem são os grandes tesouros da residência artística no Mosteiro Zen Morro da Vargem. Ali naquele mirante da estação cultural dá para perceber que, apesar de estarmos no mesmo lugar, cada instante é diferente – o céu é o rio que passa por cima da ponte de nossas cabeças e, por baixo dessa ponte, o artista se percebe em constante transformação. A oportunidade de estar imersa no mosteiro zen vai além das palavras, é uma oportunidade de conhecimento através da prática de forma imersiva e bastante concentrada. A natureza e a convivência com a vida monástica foram para mim a maior inspiração para dar mais consistência e alegria para a prática artística e a busca pelo autoconhecimento.  

Durante os 14 dias que lá estive, elegi como foco a prática da aquarela feita a partir da observação direta da paisagem, seja da vista do deck da estação cultural bem como pelos jardins do mosteiro. A pintura de paisagem en plein air, desenvolvidas ao longo de vários dias foram ditadas pela incerteza, pois a cena não era estática – a luz se modificava e alterava não só o que se via da natureza, mas também as cores do próprio trabalho – a cada dia, no mesmo lugar, havia uma cena diferente. Diante da proposição de se pintar a paisagem de observação e estar inserido nessa paisagem, o resultado é o impasse da tentativa inatingível e sem sucesso de capturar e percorrer todos os morros, todas as árvores e sombras. Essa contradição – registrar ao longo de muito tempo vários momentos diferentes – talvez seja o meu maior interesse na prática artística, pois ela é infinita justamente por não ter solução.”

– Danielle Noronha

“Em 2018 tive a oportunidade de fazer uma residência no Mosteiro a convite da OA galeria. Aceitei o convite sem saber muito oque encontraria por lá e fui aberto e sem projeto descobrir o que poderia se apresentar nessa experiência. Chegando lá encontrei o melhor espaço para trabalhar que já tive a oportunidade de conhecer nas várias residências que fiz. O espaço quase todo de vidro e virado para o vale me permitiu pela primeira vez conviver com os vários momentos dessa paisagem. Poder descobrir como os diferentes horários do dia assim como os diversos climas mudavam aquela paisagem. Sem dúvida foi uma experiência crucial que mudou a minha forma de pensar a pintura na paisagem de observação direta. Espero um dia poder voltar e pintar de novo nesse ateliê e ser novamente invadido por essa paisagem. Ainda me lembro do cheiro do cafezal florido que subia a montanha.”

Maurício Parra

Foto por Danielle Noronha

Bruno Zorzal e Clara Pignaton – Figura Matéria

29 de Setembro a 21 de Outubro de 2018

“Com as ferramentas em mãos, a fotografia e o barro, nos dispomos a investigar a noção de instabilidade que emerge dentro dos nossos processos de trabalho com estes meios. Desaparecimento, dissolução, mudança de estado se tornam condições próprias às imagens e objetos que criamos. 

De pronto, a espacialidade da Estação Cultural, ao nos colocar em uma fluida permeabilidade entre o dentro e o fora, nos oferece meios de adentrar à instabilidade. Transparência, paisagem, recortes de luz, dramas de sombra. Domesticidade e lugar de trabalho sem divisões internas. A espacialidade se coloca como um elogio à troca e intensifica reconfigurações.

As fotografias foram expostas ao sol, mas não reveladas, nem fixadas. Os retratos seguem se alterando na presença de luz até perderem o contorno e o que resta sobre o papel são as substâncias químicas que antes formavam uma imagem. Matéria.

Pelo exercício de repetição de formas primárias, compõe-se o conjunto de cilindros de barro. Barro não queimado seca e expõe sua fragilidade, se altera como figuras na paisagem. A experiência de versar água, atualizando sua função de recipiente, é na verdade uma  provocação à sua fragilidade. Uns dissolvem, outros se rompem e rapidamente desmontam – de um modo ou de outro, a perda da forma expõe a condição singular de cada cilindro. Um retorno à matéria.

Operamos pelos gestos de não fazer durar, num elogio à transformação, à temporalidade, à impermanência e à incompletude. 

A forma não é outra senão o vazio, o vazio não é outro senão a forma. As sensações, percepções, vontade e consciência também são assim. […] Todos os fenômenos são vazio.

Sutra Maka Hannya Haramitta Shingyo”.

– Bruno Zorzal e Clara Pignaton

Foto por Bruno Zorzal

Christina Bastos e Kyria Oliveira – O Tempo do Eu

Novembro de 2018

Tu tens um medo, acabar. 
Não vês que acabas todo o dia. 
Que morres no amor. 
Na tristeza. 
Na dúvida. 
No desejo. 
Que te renovas todo dia. 
No amor. 
Na tristeza 
Na dúvida. 
No desejo. 
Que és sempre outro. 
Que és sempre o mesmo. 
Que morrerás por idades imensas. 
Até não teres medo de morrer. 
E então serás eterno.

– Cecília Meireles

“Por alguns dias o Mosteiro Zen foi o nosso lugar no mundo. Uma casa de vidro em meio à natureza que trouxe de volta a consciência da não submissão ao tempo. A transformação do tempo através dos liames, passado e futuro, é parte da pesquisa poética dos vestígios e dos casulos, a experiência da residência artística tornou o tempo presente parte visível no processo de concepção.

Este novo elemento: o presente, trouxe consigo o tempo da pausa, do intervalo entre a elaboração do conceito e a concepção da ação, a fruição de si mesmo e do entorno da paisagem como parte da mesma natureza. Uma compreensão amorosa entre os limites dos materiais disponíveis e as possibilidades sensíveis na evolução das formas. 

Estar imerso na natureza aguça todos os sentidos, de repente estamos ouvindo o silêncio, o vento sobre as montanhas que se vestem de todos os verdes da paleta e a casa convida o exterior a entrar. 

Dentro e fora… 

Somos configurados por aquilo que vemos. É impossível estar no mosteiro e sair ileso, a paisagem é potente, ela se agiganta sob o nosso olhar e nos eleva a um estágio mais profundo de consciência e enriquece o eu criativo. Assim como o exterior invade a casa, ele adentra no trabalho e possibilita à construção de novos casulos e os vestígios se transformam em desenhos, pinturas, escultura e instalação. 

Fora e dentro…”

– Christina Bastos

“É difícil definir em palavras o real sentido da vivência na Estação Cultural do Mosteiro Zen Morro da Vargem. Aquelas paredes de vidro têm o poder de nos separar da correria do mundo contemporâneo e nos levar a um estágio mais consciente de nós mesmos.

Em minha primeira conversa com o Daiju sobre a residência, pedi permissão para fazer uma interferência na casinha de madeira que foi a primeira residência do Mosteiro. De alguma forma aquela casa me tocou profundamente, a sua simplicidade me trouxe de volta memórias da infância em Rondônia, com casas simples de madeira e a mata amazônica exuberante no quintal.

Fui para o mosteiro sem planejar a construção artística, mas disposta a trabalhar com o que surgisse no caminho. Minha única certeza era o trabalho na casa antiga de madeira. Coloquei na bolsa papel, lápis, carvão, crayon, tintas e carpetes…

Os recortes que faço é parte da pesquisa sobre as marcas do tempo sobre a casa, o Mosteiro me ofereceu outra casa para olhar o mundo. Meu trabalho que era só no campo da escultura e instalação ganhou uma nova dimensão causada pelo impacto da paisagem. O desenho e a pintura surgiram de forma natural, é impossível sair ileso diante da potência da paisagem, que  se agiganta diante do olhar.

Na residência trabalhei com o céu e a terra, o céu estava dentro da casa de madeira, nas pinturas em azuis entrelaçadas entre si. Na casa da residência representei a terra através de uma instalação com galhos de uma árvore que encontrei após um temporal e recortes da série Vestígios em tons de verdes reverberando os tons da paisagem circundante. 

Entre aquelas paredes de vidro me entreguei aos devaneios da casa, da grande protetora, que nos permite sonhar em segurança… A pequena casa de madeira, a luz de velas, era ao mesmo tempo, meu devaneio e meu porto seguro.”

– Kyria Oliveira

Foto por Kyria Oliveira

Oficina de desenho – Ernesto Bonato

12 de Julho de 2018

Durante o sesshin de inverno de 2018, o artista Ernesto Bonato, que havia participado de residência na Estação Cultural no ano anterior, propôs uma oficina de desenho aos participantes do retiro (sesshin) utilizando instrumentos feitos com materiais colhidos no próprio mosteiro, como penas, folhas, pedras e nanquim, estimulados pela observação da natureza circundante. As atividades educativas são um desdobramento do projeto de residência das Estação Cultural.

Foto por Ernesto Bonato
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