Programa 2020
2020
02.01 a 18.02.2020
Bartholomew Ryan (IRLANDA/PORTUGAL)
Ulysses Bôscolo (SP)
Paula Miranda (SP)
Ernesto Bonato
O Programa de Residências Artísticas de 2020 ocorreu no início do ano e foi interrompido devido às repercussões da pandemia do COVID-19. Ainda assim, a Estação Cultural recebeu artistas brasileiros e internacionais, como Bartholomew Ryan, da Irlanda e Portugal, Ulysses Bôscolo e Paula Miranda, ambos de São Paulo, sob a curadoria de Ernesto Bonato.
Veja, a seguir, o relato dos artistas residentes.
Bartholomew Ryan
2 a 12 de Janeiro de 2020
“A estória do álbum ‘Jabuti’ de Loafing Hero
Mas não foram cruzados que vieram.
Foram fugitivos de uma civilização que estamos
comendo, porque somos fortes e vingativos como o Jabuti.– Oswald de Andrade, ‘Manifesto Antropófago’, 1928
Em 2020, fui aceito como artista residente no Mosteiro Zen Morro da Vargem, inserido na Mata Atlântica no Espírito Santo. Eu não tinha certeza do que iria fazer quando estivesse na residência, – se iria escrever um livro ou iria compor canções. Depois de muitos anos compondo, gravando e tocando com a banda internacional The Loafing Heroes (https://theloafingheroes.bandcamp.com/) na Irlanda, Dinamarca, Alemanha e Portugal, este momento no mosteiro foi um interlúdio, uma pausa para respirar.
Eu era a única pessoa a realizar a residência artística – Vivi na casa de vidro, com uma vista encantadora da Mata, que parecia estar olhando para um infinito escuro. De repente, estava escrevendo uma nova música cada dia e, em seguida, gravando-a com minha voz e violão no meu celular no fim daquele dia. O som acústico natural na casa de vidro era extraordinário. Sem conexão de internet, a única companhia que tive durante as duas semanas eram pássaros amarelos, macacos, formigas, lagartos, sapos, grilos, a chuva e dois jabutis. Nessas gravações, é possível ouvir a chuva tropical; outras vezes, os pássaros cantando durante o dia ou outros animais não identificados fazendo barulho durante a noite.
Quando finalizei a residência, voltei para Lisboa para gravar outras melodias em violão, e também tive a colaboração de Tadklimp (baseado em Berlim), que gravou os instrumentos – baixo, percussão, piano, violão e alguns efeitos para acrescentar nas canções que compus Mosteiro.
Fiz desenhos e esboços no meu caderno durante essa incrível experiência no Mosteiro, e que transformei na capa do álbum em vinil que vou lançar.
O álbum chama-se ‘Jabuti” sob o nome artístico Loafing Hero (‘loafing’ significa errante, vadiar, vagar), e será lançado com a colaboração de Garden Collective em fevereiro de 2022.
Aqui está o primeiro videoclipe de uma das músicas:
Quero agradecer Daiju Bitti, Ernesto Bonato e Fabricio Noronha por sua generosidade, e por esta grande oportunidade e experiência maravilhosa que me inspirou escrever tantas músicas para criar o álbum Jabuti.”
– Bartholomew Ryan

Ulysses Bôscolo e Paula Miranda
30 de Janeiro a 18 de Fevereiro de 2020
“A primeira reação é de espanto, silêncio quando nos deparamos com a paisagem que está a sua espera. Existe uma força que te comprime e depois te liberta, meio que sem querer caminhando pelo deck. As montanhas se perdem no horizonte e fechamos os olhos, respirando a sensação de solidão rochosa, de atmosfera de hortaliças distantes.
O tempo se faz presente.
Optei pelo desenho mais puro, e talvez mais ingênuo por se tratar de tramas oriundas da gráfica da gravura em metal, que pudesse costurar; tecer e arquitetar um sentido para o que venho realizando já alguns anos no ateliê. Eu não tinha idéia do que poderia vir, e fiquei observando além dos monstros no horizonte os poemas pequenos que eram despejados no dia a dia no gramado: mangas mordidas por macacos, pinhas, flores, folhas, cascas de borboleta, frutas provadas por passagem, por brincadeira, um cosmos de cor que se destacavam também entre os inúmeros insetos.
A lua me visitava.
A lua como ponto/ furo/ estrela antiga que adormece.
As rãs e morcegos, mariposas e uma infinidade de loucuras aos poucos eram registradas no meio do papel, sendo por ventura amassados, manchados, ou seja, rabiscados com frescor como se pudesse morar em cada espaço entre uma folha e outra.”
– Ulysses Bôscolo
“a pintura em mim
dói, acalma, acalenta, trovoa, choro e vibro- nem sempre nessa ordem.
sempre desenhei. a paisagem habita em mim. bem mais as verdes – me povoam. são plantas, mares, montanhas- com todos os cheiros e vibrações de viagens que fiz.
A residência da Estação Cultural foi inédita por ser minha primeira residência artística. O Morro da Vargem é um lugar de impermanência. O tempo é o da montanha. Tudo ali permeia qualquer ser a todo instante e não foi diferente comigo, leva um tempo, talvez depois de uma semana tive a sensação que algo fluia em meu fazer artístico.
Abaixo um pequeno trecho do diário de pintura que penso expressar esse “permeamento”.
‘No lugar onde vejo a profundidade da mata, tento ver, pois me parece infinita, os olhos vão se acostumando com os múltiplos tons de verdes. Descubro uma folha amarela refletindo a luz do sol ou ainda manchas numa folha de bananeira caída. Neste lugar, onde as curvas das árvores conversam, descubro, ou pelo menos tento trazer minha poesia, simples, bruta, delicada, complexa como a natureza, e começo a perceber que esta habita em mim.
Nesses instantes, instante da queda de uma folha, não sinto nada, nem melancolia o que poderia parecer esta cena para quem vê de fora. Basta ficar aqui, sentada, em uma mesa escrevendo depois de um banho fresco e cabelos limpos- salvos por alguém que deixou um shampoo. Olho o meu novo desafio de um desenho grande, após um frenesi de pequenos desenhos- para mim, desenhar em uma escala maior é importante nesse momento, pois a vida na capital paulistana o tempo é outro. Aqui isso não importa, só consigo pensar no desenho da grande montanha, nos detalhes que vão surgindo, como a mata, rochas e penhascos e minha imaginação cria ninhos e histórias de pássaros. Falando neles, acabo de receber a visita de um bem-te-vi peito amarelo espiando o tufo de hibiscos, rosas e vermelhos a procura de insetos que habitam ali- mas não é nada disso, pretensão a minha, foi-se embora e ouço seu canto em alguma árvore próxima.’ “
– Paula Miranda
