Programa 2021
2021
Entre Nós: 26.01 a 03.03.2021 ; Demais Residências: 22.10 a 20.12.2021
Entre Nós:
Denis Rodriguez (RS/BA)
Leonardo Remor (RS/BA)
Neka Menna Barreto (SP)
Elaine de Azevedo (SP);
Demais Residências:
Nicolas Soares (ES)
Otávio Leite (ES)
Denise Adams (RS)
Jean_François Simon (BÉLGICA)
Alexandre Silveira (SP)
Ticiano Monteiro (PR)
Entre Nós: Clara Sampaio
Demais Residências: Ernesto Bonato
Em 2021, a Estação Cultural recebeu artistas residentes como parte do Programa Entre Nós, em parceria com a OÁ Galeria. Entre Nós foi um projeto de residências que se construiu a partir da investigação da experiência do viver. Foi uma proposição de um tempo e um espaço para ser. É, enfim, um lugar para o debate e a produção artística não mediada por processos mais tradicionais de conhecimento.
Cada residente que chega ao projeto pouco pode prever o que acontecerá em sua estadia. Na relação que desenvolveu com o lugar e seus habitantes, é o próprio lugar, em seus contextos espaciais e temporais, que devolve a ele ou a ela suas questões, que chama à atenção; à presença, à escuta, que apresenta novos códigos e desafios; e perturba (talvez) o hermetismo que por vezes acomete a arte contemporânea. Veja só: em um momento em que nos vemos mais fragilizados do que nunca, relembrados que a vida é um instante e o que o ser humano faz parte de um ecossistema complexo de relações com a natureza; não basta estar, temos que agir.
No ateliê-floresta da Estação Cultural, o tempo parece se comportar de outra forma: derrete-se, cria a ilusão de estar mais alargado; ao passo que é depressa, tudo é novo, fresco e inquietante, há muito que se absorver no Mosteiro.
Pois bem, o tempo é curto, a vida pulsa. É este pulsar que em 2021, na segunda edição do projeto, se configurou como uma experiência entre praticantes e pesquisadoras; dentro e fora da Arte; para pensar a ideia de consumo de forma expandida: do que ingerimos, compramos ou utilizamos; dos impactos dessa equação do planeta.
Esta foi a quarta experiência de parceria entre o Programa de Residência da Estação Cultural do Mosteiro Zen Morro da Vargem e a OÁ Galeria, de Vitória, ao acolher proposta da curadora Clara Sampaio para a realização de duas residências consecutivas no início de 2021 como parte do projeto Entre Nós, da OÁ Galeria.
Link da publicação: https://issuu.com/clarasampaio/docs/entrenos

Denis Rodriguez e Leonardo Remor – Tempo sem começo, futuro sem fim
26 de Janeiro a 14 de Fevereiro de 2021
“Tempo sem começo, futuro sem fim
Como responder a um convite de se exercitar a pausa e habitar o silêncio? Seria possível afastar as preocupações que atravancam a vida cotidiana? E abandonar a nossa própria inquietação? É possível contemplar sem contar as horas? Desejar outra coisa diferente daquilo que nos move? Ou simplesmente remover a grossa capa do hábito e nos lançar no campo fértil da essência das coisas, do pulsar da vida, da impermanência do mundo? Aqui e agora.
Praticar a pausa, ou o silêncio, sendo que pausa e silêncio em nossa residência foram sinónimos com ressonância intensificada neste contexto paranoico prolongado de pandemia, confinamento e isolamento social.
E como falar do silêncio? E como compartilhá-lo? Se a voz quebra o silêncio, então estamos decididos em perpetuá-lo. Assim Rodriguez entrevista Remor que entrevista Rodriguez, em uma troca de mensagens que busca dar linguagem. experiência muda de se estar em contínua transformação.
Denis: Nossa principal leitura antes da residência foi o livro Mente Zen, Mente de Principiante de Shunryu Suzuki. Ele nos introduziu aos preceitos zen budistas e no final percebo que todos os trabalhos que realizamos na residência lidam com dois deles, a repetição e a atitude de não deixar rastros. A vela tem relação direta com esses preceitos e foi nosso principal material de trabalho, com ela produzimos 3 peças: a série Impermanência, as pinturas de parafina em matizes de azul que podem ser acendidas pelo visitante; a série Fogo no Mar, que misturou parafina e pesquisa iconográfica de embarcações em chamas e os desenhos de fuligem que deixamos nas paredes da Estação Cultural. Não me lembro exatamente do momento em que decidimos trabalhar com a vela, foi algo que simplesmente aconteceu. Gostaria que você comentasse sobre esses trabalhos e que tentasse responder: por que a vela é um material tão atraente?
Leonardo: A vela é um elemento comum a todas as manifestações espirituais e religiosas, de certa forma unifica a espiritualidade. Algo muito especial da residência foi a aproximação com os monges e a rotina do mosteiro. Daiju-San tem a preocupação/prática de se relacionar com o entorno e aproximar as outras religiões, tanto que ele criou o Caminho da Sabedoria, que percorre todas as pequenas capelas vizinhas. Caminho esse que curiosamente fecha em 108 km, o emblemático número do budismo e dos Vedas. Buscamos a chama da vela para iluminar nossas noites e começamos a trabalhar com ela. Pensando sobre consumo consciente – esse pano de fundo presente na proposta da residência – fomos trabalhando com os materiais do cotidiano que tínhamos à nossa disposição, deixados pelos monges ou por outros residentes que por ali passaram. Fomos acendendo as velas no chão em contato com a parede e observando esse desenho que a vela deixava ao ser consumida pelo fogo: o único rastro de sua presença. A parafina em contato com o papel foi virando pintura… e pintamos justamente o que víamos: o passar das nuvens, a impermanência do céu… E decidimos deixar um pequeno pedaço de vela no quadro para que a pintura pudesse ser acesa. Uma pintura com fogo. Passou pouco tempo, eu sei, mas o que ficou dos nossos dias no mosteiro? Ou o que ainda está reverberando no aqui e agora?
Denis: Sigo atraído pelo enigmático número 108 e não me esqueço da trilha da purificação com os 108 portais toriis, aquele caminho ascendente que nos conduz a outro mirante do mosteiro. Me lembro do Daiju nos contando que os 108 toriis simbolizam as 108 virtudes a serem cultivadas… O número 108. o número da representação divina para muitas culturas e religiões orientais. A distância aproximada entre a Terra e o Sol é 108 vezes o diâmetro do Sol. Ao mesmo tempo em que a distância entre a Terra e a Lua é 108 vezes o diâmetro da Lua. Me intriga como a civilização védica podia saber disso com tão poucas ferramentas científicas disponíveis… o número 1 indica aquele Um, chame-o por qualquer nome ou tenha qualquer forma, porque esse Um existe em cada um e em tudo o que percebemos ou imaginamos, com um nome e uma forma. Quanto ao 8, os Upanishads explicam que ele representa a natureza, da maneira mais breve possível para a compreensão de um leigo. O Capítulo 7 do Bhagavad Gita explica de maneira bastante semelhante a simbologia do número 8: “terra, água, fogo, ar, espaço, mente, intelecto e ego – esses são os oito componentes da minha energia material. Assim, os números 1 e 8 podem ser considerados como a manifestação do Um como natureza e aí compreendemos a espiritualidade ligada ao 108. Nesse trânsito entre a Índia e o extremo oriente essa simbologia só se fortaleceu. 108 são os mantras do budismo, como também, o número de contas do japamala. Repetir um mantra 108 vezes te aproxima da energia vital, do fogo e do Sol. Não tenho dúvida de que o mistério dessa simbologia nos motivou a produzir o maior japamala do Ocidente, talvez do mundo [rs]… nessa peça, feita de contas cerâmicas de diferentes cores, convidamos todos os que passaram pelo ateliê a produzirem bolinhas de argila. Acho que sozinhos produzimos mais de mil e os visitantes produziram outras tantas… Levaremos alguns anos para realizar as 108 voltas no chão, em torno do próprio eixo. Foi estranho criar um trabalho participativo em plena pandemia e, ao mesmo tempo, muito gratificante. Ter tido a chance de ver o público contribuir para a expansão da instalação no dia do encerramento da residência, apesar de todas as restrições, me fez pensar sobre a sociabilidade como a grande característica da humanidade, que apesar de todos os reveses sempre ressurge. Se a pausa e o silêncio ainda são uma escolha, o isolamento social é uma condição de emergência, um estado de exceção. Fico pensando se a nossa residência não foi exatamente como uma vela, um instante material, um lampejo fugaz, situado entre o efêmero, a espiritualidade e a poesia do presente.”
– Denis Rodriguez e Leonardo Remor

Neka Menna Barreto e Elaine De Azevedo – Comida entre nós
25 de Fevereiro a 03 de Março de 2021
“Comida entre nós
Tempos de encontros de poucos, de desacelerar, de compreender o invisível e valorizar o esforço do coletivo. Essas palavras do monge Daiju durante a meditação se tornaram a essência da nossa residência Entre Nós. Poucos estiveram presencialmente, como deve ser agora. Mas entre nós, esteve a comida. O banquete intimamente compartilhado no mosteiro. E entre nós, o Juarez, que cultivou o arroz; o Rudmar, que plantou o gergelim; a Ana, que fez o umeboshi; a Naiumi, que cuidou dos cogumelos. Entre nós, o Vicente e o Ciro, que plantaram a árvore de louro; os agricultores paulistanos, pomeranos e capixabas, que germinaram os vegetais orgânicos. A Lucia, que revelou seu chocolate. Entre nós, o olival dos Arrifes em Portugal, o mel de Barbacena. Entre nós, os indígenas que ensinaram o beiju e protegeram o amendoim; a África, berço do tupinambur e do inhame; o Cerrado que ofereceu o cumaru e a baru; os povos pré-colombianos que cultivaram a quinoa; a Índia que enviou as sementes de erva-doce e o gengibre; a Alemanha, a semente de damasco e a ervilha beluga; a China, o missô, e shoyu.
Entre nós a Thaís, a Clara, a Mirella, o Fabrício, a Secretaria de Cultura do Espírito Santo que se contaminaram com a arte da comida. Entre nós e as montanhas capixabas, o terno acolhimento do Daiju, do Kendo, do
Enshu, da Taishin e do Shojun. A nossa tela – minha e da Neka – foi o Mosteiro; as nossas tintas foram as relações humanas transpassadas pela criatividade e cores que a comida, em todas suas dimensões, oferece.”
Elaine de Azevedo
“Algo do sagrado em mim
Participar do projeto Entre Nós foi uma surpresa. Estava em carne viva pelo falecimento do meu pai, feito um ovinho sem casca. Cheguei lá sem sabor, uma página em branco, um pano sem vestígios, sem rastros, na escuta de algo que não sabia… fui colecionando folhinhas que apareciam na minha frente, um sonho, palavras, feito um quebra-cabeça. Tudo estava silencioso, amanteigado e fácil. Muitas vezes precisamos nos traduzir para o outro. Lá parecia que a paisagem e o outro estavam dentro e fora o tempo inteiro. Assim, com o Mosteiro fechado, o Daiju, o Kendo, a Elaine e as gurias (Thais, Clara e Mirella) tínhamos uma relação-paisagem onde a vastidão existia. As meditações com os monges, os rituais, a floresta, a relação na casa transparente com a Elaine. Entrelaçamos, a essência apareceu, e tudo fluiu como a água que corre no rio e desemboca no mar. Foi o sagrado dentro de mim. 10.800 minutos cabem numa vida inteira. Vive-se.”
– Neka Menna Barreto

Além das residências do projeto Entre Nós, a Estação Cultural também recebeu outros artistas em suas instalações.
Nicolas Soares e Otávio Leite – TUDO O QUE SE PODE OFERECER
22 a 31 de Outubro de 2021
“O vazio é espaço constituinte da relação entre a imagem e a realidade. Desta forma, quando me deparei com a casa de vidro numa existência entre paisagem vasta, sons e matérias, na verdade, questionei a presença, o compartilhamento e o afeto.
TUDO O QUE SE PODE OFERECER é uma maneira de “pôr a mesa”; o convite e o compartilhar. É sobre como a imagem oferece uma dialogia entre outrora e a expectativa de algum momento, manifestado nesta presença sensível.
TUDO O QUE SE PODE OFERECER
SOBRE A NATUREZA DUPLA E PARADOXAL DA IMAGEM
FORMA É VAZIO E VAZIO É FORMA FORMA É FORMA E VAZIO É VAZIO
FORMA
EU
VOCÊ
O AFASTAMENTO DA IDEIA DE GANHO
MANTER CONTINUIDADE SEM RASTROS
O SOFRIMENTO DA DUALIDADE.”
– Nicolas Soares

Denise Adams e Jean_françois Simon
8 a 30 de Novembro de 2021
“o apego.
Cheguei ao Morro da Vargem carregada de histórias já trazidas e soterradas em/de mim. Como material, levava comigo fotos antigas, uma coleção de lenços de tecido, um livro francês de anatomia com ilustrações, um tapete de feltro que havia servido de obra-ação de uma exposição passada, câmera e outros pequenos objetos. Por dentro, todo o apego àquele material e uma disposição de afrontá-lo. Não se tratava de juntar os cacos, mas enfrentá-los de fato. Lidar com o incontrolável de qualquer resultado, esse era meu trabalho.
o assombro. ou o espanto.
Causa impacto a chegada. A Estação Cultural está no lugar mais privilegiado do Mosteiro. Do generoso deck de madeira se avista um mar de montanhas, pequenos vilarejos e no entorno da imponente construção de madeira e vidro, a natureza exuberante. Já está tudo ali, não precisa de mais nada, só observação atenta e agradecimento pelo privilégio dos 20 dias que habitamos o espaço. Das pequenas folhas, da nuvem que chega sem cerimônia e invade a casa, dos insetos em baile com as lagartixas e também do silêncio e do tempo expandidos. Cada dia vivido por lá é estar na direção de alguma inventividade imprevisível. Não sabemos o que irá surgir, mas surgirá.
o treino.
Sou uma artista indisciplinada e sabotadora de mim mesma. Quando me aproximo das profundezas, arrumo um jeito de escapar. É difícil o engajamento rotineiro da minha produção, isso é fato. Acolher essa experiência foi um arrojo. Os 20 dias ininterruptos na casa me permitiram o exercício de fazer e refazer, desmanchar, desfazer, colapsar, arruinar, destruir, reerguer, duvidar, rever.
a alegria.
A alegria de finalmente saber o que fazer diante do trabalho/obra. Como diria Didi- Huberman “Para saber, é preciso tomar posição. Gesto nada simples. Tomar posição é situar-se pelo menos duas vezes, em pelo menos duas frentes que toda posição comporta, pois toda posição é, fatalmente, relativa. Trata-se por exemplo, de afrontar algo: diante disso, todavia, precisamos também contar com tudo aquilo de que nos afastamos.” Não há resposta imediata, a solução (boa ou má, não importa tanto) para o trabalho da arte, depende do engajamento, do vínculo, do amor pelo assunto, por fim. Senti uma verdadeira alegria ao re-re-re-encontrar o desenho em palavras para compor o sofisticado livro de anatomia, palavras como base do desenho, trazendo por vezes a abstração e o desconforto do rigor científico em justaposição às angústias humanas. Com outro trabalho também; fez sentido o vento nos lenços de tecido pregados no imenso banco de madeira do deck. As bandeiras de uma linhagem budista que evocam ao mundo as preces e as boas vibrações.
a festa.
Os encontros. Sim, só por eles, tudo ou muito já vale a pena. As visitas de domingo ao Mosteiro trazem surpresas. De desavisados e desinteressados em processos artísticos aos curiosos para tentar entender o que se passava lá dentro, encontramos vários. Foram muitas as conversas interessantes e até vínculos para além do território do Mosteiro. Trouxemos amigos e intensas conversas na bagagem de volta.”
– Denise Adams